Tempo Perdido

Pensamentos errantes sobre política, ciência, arte e a vida em geral

Nos céus, a fumaça. Na terra, o inferno. 

Sobre os ladrilhos de segunda maior cidade do Brasil, pés descalços pisam nos cacos das janelas quebradas, mãos trêmulas carregam corpos mutilados, o sangue se derrama aos litros, a calada da noite dá lugar aos prantos e gritos de desespero de quem acorda de manhã e vê que o pesadelo é real. 

Quantos são? Trinta, cinquenta, cem? Cem vozes caladas, cem corações que jamais baterão novamente. Cem seres humanos, gente como a gente, cujas carnes apodrecem agora sob os lençóis, juntados às pressas pelos familiares, para que suas faces putrefatas não sejam expostas, para que tenham paz pelo menos em morte. Tudo isso em praça pública. E em troca de quê? O que ganhamos ao final disso tudo?

Todos nós conhecemos a morte, e todos nós sabemos o quanto a morte dói. Contra a morte por doenças, podemos ir ao médico, fazer exames, tomar remédios. Contra a morte por acidentes, podemos tomar cuidado, evitar riscos. Mas e quando a morte vem das mãos daqueles que juraram proteger? O que fazer quando a morte é política de Estado, é escolha consciente de quem deveria servir o “interesse público”? 

O que fazer quando nossos “representantes eleitos” decidem que nossa morte é um risco aceitável, um dano colateral no seu jogo mesquinho cujo prêmio é o controle e o poder? 

Jogo mesquinho, porque não se trata, aqui, de (in)segurança pública ou combate ao crime. É preciso, sim, combater o crime organizado. Não vamos nos iludir com a figura dos “bons bandidos”, porque os territórios controlados pela milícia e pelo tráfico são pequenos reinos do terror, onde todo e qualquer direito, por mais básico que seja, é condicionado à conveniência que representa para quem detém as armas e o poder. Mas isso não significa que vale tudo. Nenhum médico trata um câncer no miocárdio arrancando o coração do paciente. Não se combate o crime com mais crime, a barbárie com mais barbárie. Se abrimos mão da civilidade, da decência humana, do respeito à vida, o que nos resta? Como podemos pretender sermos melhores do que os criminosos? 

Não existe cálculo racional que justifique as cenas dantescas que o Brasil presenciou nesta terça-feira. Ou melhor, existe e tem nome: populismo. O desespero de Cláudio Castro, governador e mandante da chacina, é o desespero para emplacar seu nome em algum cargo eletivo nas eleições de 2026. Para isso, escolhe se valer da hipocrisia do “bandido bom é bandido morto”, o discurso favorito daqueles que não estão nem aí se vão virar monstros, desde que levem outros monstros ao inferno consigo. O desgovernador quer comprar a vitória nas urnas com as almas dos policiais e o sangue dos favelados, um contrato demoníaco onde só ele sai ganhando e todos nós saímos perdendo. 

Todos saímos perdendo, porque o massacre desta terça-feira não fez nem cócegas nos altos escalões do Comando Vermelho. Ao custo de cem vidas, nenhum único chefe da facção foi preso. Nem um metro quadrado sequer foi retomado Que “megaoperação” é essa? Dizem que a polícia passou um ano colhendo inteligência, e todo o tempo perdido, todo o dinheiro público gasto, todas as vidas humanas encerradas precocemente deram nisso? Duas únicas prisões importantes? Em qualquer organização séria, os responsáveis seriam postos no olho da rua imediatamente por sua incompetência. Vamos aceitar que, dentro do Estado, esses hipócritas continuem mandando e desmandando? 

As facções criminosas, no Rio de Janeiro e em outros cantos do Brasil, atuam como guerrilhas, e não se combate uma guerrilha com confronto direto. O Talibã resistiu a trinta anos de ofensivas, soviéticas e americanas, e ressurgiu no final para tomar o poder como se nada tivesse acontecido. A guerra atual no Sudão está seguindo pelo mesmo caminho. Qualquer um que estude o mínimo de história militar sabe disso. A polícia sabe disso. Cláudio Castro sabe disso. A verdade escancarada é que eles não querem resolver o problema, porque se quisessem, não desperdiçariam tempo, dinheiro e sangue com uma “operação” tão bárbara e ineficaz. 

Para cortar o mal pela raiz, é preciso investir em educação, moradia, oportunidades de emprego e lazer, condições dignas e seguras dentro e fora dos presídios. É preciso investir em políticas públicas que demoram anos, quiçá décadas, para dar resultados. Políticas públicas que não geram cortes pras redes sociais e nem manchetes nos jornais, e por isso, não são interessantes para gente da estirpe de Cláudio Castro, para quem toda ação do Estado é apenas um meio de ganhar votos e se perpetuar no poder, o “bem público” que se dane. 

Até quando vamos tolerar esse tipo de gente comandando nosso governo? Quantos corpos mais precisarão ser empilhados em praça pública? 

Se esperarmos demais, pode ser que os próximos danos colaterais sejam nossas próprias vidas, e então serão os nossos parentes e amigos quem precisarão nos cobrir com lençóis enquanto o Estado se faz de surdo, mudo e cego e nosso sangue se esparrama pelas ruas. 

Não dá mais pra ser assim.

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