O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 foi um baque, não só para o campo da esquerda, mas, provavelmente, para todo o mundo político brasileiro fora da bolha radical bolsonarista. Apenas alguns meses atrás, víamos um líder do Centrão dizer que a chance de Flávio Bolsonaro ser eleito era zero, e agora, é Lula quem precisa virar o jogo para evitar um repeteco de 2018. Não será fácil. Mas toda derrota deve ser estudada para não ser repetida, e nesse momento, precisamos nos perguntar: o que deu errado?
Existem muitos fatores por trás dos resultados das urnas: uma série de eventos que podem ter prejudicado a campanha de Lula, como a recusa a comparecer em debates e a pauta-bomba do envolvimento pessoal de Moraes com o caso Master, liberada a um mês das eleições pelo terrivelmente evangélico que Bolsonaro indicou ao STF, a interferência estadunidense explícita, o contexto geopolítico global que tem causado altas de preços e o derretimento do poder de compra no mundo todo.
Ainda assim, apesar de tudo isso, pelas métricas tradicionais da política, esta eleição deveria ser vencida de lavada. Bolsonaro foi um presidente extremamente impopular, tanto que conseguiu a proeza de não se reeleger mesmo com um sem-fim de medidas eleitoreiras, inconstitucionais e ilegais, e apesar da coação sofrida pelos eleitores de esquerda em 2022, que foi amplamente documentada. Por outro lado, Lula é o terceiro na lista de governantes do Brasil por tempo de governo, atrás apenas de Getúlio Vargas e Pedro II. Está disputando a reeleição após um governo de resultados concretos, com resultados positivos em diversos indicadores econômicos, uma atuação diplomática que o colocou nos holofotes globais, e o apoio de setores consideráveis da elite.
Mas os indicadores, as manchetes e as reuniões de gabinete não podem esconder o esgotamento político da conciliação de classes lulista, que não consegue dar uma resposta firme à crise econômica vivenciada no mundo todo. Lula governou nos anos 2000 a partir de uma série de concessões políticas, que foram possíveis graças a um jogo de cintura que está bem documentado. O Bolsa-Família, os PACs, a Farmácia Popular, tudo isso são vitórias, e isso é inegável. Mas, ao mesmo tempo, a educação foi rifada para o setor privado através de programas como o ProUni e o FIES, o agronegócio recebeu incentivos fiscais bilionários, programas de acesso ao crédito estimularam o aumento do consumo às custas do endividamento da população, e a dívida crescente da dívida pública reservou uma fatia cada vez maior do orçamento público para a elite financeira rentista.
Ou seja, Lula governou cedendo para ambos os lados, um pouco para o trabalho, um pouco e meio para o capital, e o espaço que poderia ser cedido foi diminuindo aos poucos. Agora, esse espaço está quase esgotado, mas o conflito de interesses entre ambos os lados permanece o mesmo. Os trabalhadores precisam de mais, porque o que temos ainda é muito pouco. O capital quer sempre mais, porque essa é a natureza intrínseca do sistema capitalista, a ganância desenfreada, a geração sem fim de riquezas. É uma tensão que a mera conciliação de classes não pode resolver, mas o maior partido de esquerda do Brasil, que sempre se distanciou do comunismo, ou não tem capacidade, ou não tem interesse de pautar o conflito de classes em todos os seus termos. Há tentativas cambaleantes de mobilização ao redor de pautas isoladas, mas isso não vai ser bastante para salvar Lula da derrota, nem será o bastante para salvar o Brasil de mais quatro anos sob um desgoverno bolsonarista.
Não é por acaso que Lula 3 foi o mais medíocre dos três governos lulistas, não é por acaso que Dilma sofreu o impeachment justamente quando limitou as concessões às elites, e não é por acaso que Flávio Bolsonaro saiu à frente no primeiro turno de 2026. A infraestrutura econômica brasileira não suporta mais um modelo político fundamentado na conciliação de classes. E enquanto o maior partido de esquerda for um partido acovardado, que tem medo de dar nome aos bois, que tem medo de propor a mudança necessária, que tem medo de afrontar a elite econômica, os eleitores desiludidos com sua situação econômica continuarão a procurar a mudança na direita, porque todos percebem que o status quo é insustentável.
E esse é o erro que pode custar essa eleição. O PT se tornou um partido do status quo, de situação, e esvaziou a força revolucionária que um partido popular de massas tem e deve exercer. Eventos pontuais, por vezes, influenciam eventos históricos, mas o resultado do primeiro turno é a culminação de contradições que vêm crescendo desde a Constituinte. Contradições que vão engolir que não for capaz de percebê-las e agir conforme suas características.
Houve um tempo em que a conciliação lulista pôde ser defendida pelos resultados concretos que entregava. Esses dias estão no passado. Quer Lula ganhe, quer Lula perca, a esquerda brasileira precisará de uma nova direção a partir de 2030. Precisamos ir à luta. Precisamos ir ao confronto. Precisamos viver, na prática, a luta que defendemos na teoria, enfrentar a reação onde ela estiver, e mostrar ao trabalhador brasileiro que apenas ele mesmo pode defender seus interesses.
Porque se não formos à luta, a luta virá até nós.

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